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Por que ilhas desertas são dominadas por cobras

Por Evanildo da Silveira, BBC

Não são poucas as pessoas que têm o sonho de viver – ou pelo menos passar umas férias – numa ilha, ensolarada, rodeada de praias e com vegetação exuberando no interior. Mas, às vezes, é preciso ter cuidado. Um bicho que causa medo em muitos já pode estar instalado nela, rastejando ou em cima de árvores e pedras. São as cobras, que vivem em muitas delas.

Num levantamento, realizado durante cinco anos, na literatura científica sobre 986 ilhas ao redor do mundo, o biólogo e herpetologista Marcio Roberto Costa Martins, do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), catalogou 1.223 espécies.

De acordo com ele, é comum a ocorrência de serpentes em altas densidades em ilhas e isso ocorre principalmente porque as faunas desses ambientes são naturalmente pobres, o que resulta em poucos ou nenhum predador. “Isso leva a crescimento populacional delas maior do que nas espécies do continente”, explica. “De fato, constatamos que as cobras mais abundantes do mundo estão em ilhas, destacando-se a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), de Queimada Grande, a 35 km do litoral de São Paulo, e a víbora-de-shedao (Gloydius shedaoensis), na China.”

Martins conta que a ideia do levantamento surgiu depois que ele e seu colega Harvey Lillywhite deram um curso de pós-graduação sobre Ecologia de Ilhas na Universidade da Flórida (Gainesville, Flórida), no segundo semestre de 2013. “Durante esse curso, nós dois nos demos conta de que ainda sabíamos relativamente pouco sobre a ecologia e a biogeografia [distribuição de espécies num determinado ambiente] das cobras que ocorrem nesses locais isolados por água ao redor do mundo, embora houvesse alguns casos bem conhecidos”, diz.

“Entre eles, a jararaca-ilhoa, que tem sido estudada nas últimas décadas por um grupo de pesquisadores do qual eu faço parte, e a boca-de-algodão (Agkistrodon piscivorus) da ilha Seahorse Key, da Flórida, a que o Harvey vem se dedicando também há décadas.”

Pesquisador diz que cobras são comuns em ilhas porque há poucos ou nenhum predador — Foto: Gustavo Arnaud/BBC
Pesquisador diz que cobras são comuns em ilhas porque há poucos ou nenhum predador — Foto: Gustavo Arnaud/BBC

Diferentes ilhas

Segundo Martins, não havia na literatura algo sobre os padrões gerais da ecologia e biogeografia de cobras insulares. Por isso, eles resolveram fazer uma revisão sobre o assunto e iniciaram textos preliminares já em 2013. “Pouco depois disso, percebemos que seria muito interessante colocar em um livro o conhecimento que já havia sido acumulado sobre as serpentes que vivem em ilhas, por meio de capítulos focando em diferentes espécies e sistemas ao redor do mundo. Passamos então a convidar pessoas que trabalham com esses ofídios em várias partes do planeta para participarem da obra.”

Os pesquisadores classificaram as ilhas estudadas em três tipos – os mesmos em que se dividem praticamente todas as do mundo: oceânicas, continentais antigas e continentais recentes. As primeiras ficam sobre a crosta oceânica e foram formadas principalmente por vulcanismo, as segundas são pedaços de rochas sobre a plataforma continental, que foram separadas do continente pela movimentação das placas tectônicas, e as terceiras são aquelas localizadas nas plataformas continentais e que surgiram com o fim da última glaciação.

Para simplificar, pode-se considerar as segundas e as terceiras como um mesmo tipo, consideradas de maneira geral como continentais.

Martins diz que é importante ressaltar que a origem das serpentes dessas ilhas é muito diferente daquela das oceânicas. As cobras que vivem nelas, na maioria dos casos, são porções relictuais (remanescentes) de populações que eram amplamente distribuídas nas plataformas continentais expostas durante as glaciações do Pleistoceno (período que estendeu de 1,8 milhão a 11 mil anos atrás).

“Explicando melhor: em cada período glacial do Pleistoceno, o mar retraía e expunha boa parte da plataforma continental”, explica. “No pico da última glaciação (que foi – a própria glaciação, não o pico – de 110.000 a 10.000 antes do presente), por exemplo, o mar estava a 120 -130 m abaixo do nível atual.”

Nesses períodos, explica Martins, essas regiões expostas das plataformas eram cobertas por vegetação costeira e as espécies que ocorriam no litoral expandiam suas distribuições para esses novos habitats. Com o aquecimento da atmosfera e o consequente aumento do nível do mar, as montanhas da plataforma continental exposta durante a glaciação se tornaram ilhas e as populações que aí estavam ficaram presas nelas.

Nas pequenas, como Queimada Grande e Alcatrazes, na costa de São Paulo, por exemplo, boa parte delas que ficou confinada acabou se extinguindo, restando apenas uma fauna relictual. Por exemplo, só duas na primeira e apenas três na segunda. Já nas grandes, ocorrem poucas extinções. Como na ilha de São Sebastião, que possui uma fauna de serpentes (22 espécies) quase tão rica quanto a de uma área equivalente do continente adjacente (cerca de 25 a 30).

O que acontece nas oceânicas é bem diferente, no entanto. As populações de cobras, na maioria das vezes, são originadas por processos de colonização, pois são locais sem conexão atual com os continentes. “As serpentes colonizam ilhas usando a forma de dispersão conhecida como ‘aquática passiva'”, explica Martins. “Ou seja, pegam carona em ‘balsas’ de vegetação, que são lançadas ao mar pelos rios. Na Amazônia, elas são chamadas de ‘camalotes’ (especialmente aquelas formadas por aguapé) ou periantã.”

Como exemplo, ele cita a colonização das Pequenas Antilhas por cobras da família Boidae, do gênero Corallus – as jiboias arborícolas, e da família Viperidae, do gênero Bothrops – as jararacas, que deve ter se dado por meio de ilhas de vegetação que foram lançadas ao mar na foz do Rio Amazonas e que foram levadas até lá por correntes marinhas, que fazem exatamente esse percurso, do noroeste da América do Sul em direção ao sul do Caribe. Também foi dessa forma que as serpentes colonizaram e se diversificaram nas Galápagos.

Diversidade de serpentes

Das 986 ilhas que Martins e Lillywhite estudaram para a revisão que fizeram, 368 são continentais e 618 oceânicas, desde minúsculas, como Senkaku, no Japão, como 1.000 metros quadrados, até gigantes, como a da Nova Guiné, com 785.753 km², dividida por dois países, Papua Nova Guiné e parte da Indonésa.

Entre as primeiras, são exemplos no Brasil, Queimada Grande, São Sebastião e Santa Catarina, e no mundo, Grã-Bretanha (a maior do Reino Unido), Bornéu, Sumatra, quase todas as gregas e a maior parte das do Japão, incluindo as maiores delas.

Entre as segundas, estão as brasileiras Fernando de Noronha, Trindade e Martim Vaz, e as de fora Maurício, Okinawa, Havaí, Nova Zelândia, Sulawesi e Hispaniola (dividida entre República Dominicana e Haiti).

Das 986 ilhas que Martins e Lillywhite estudaram para a revisão que fizeram, 368 são continentais e 618 oceânicas — Foto: Marcio Martins/BBC
Das 986 ilhas que Martins e Lillywhite estudaram para a revisão que fizeram, 368 são continentais e 618 oceânicas — Foto: Marcio Martins/BBC

Os pesquisadores encontraram 718 espécies de serpentes nas continentais e 761 nas oceânicas, o que dá médias de 6,1 e 4,8, respectivamente. “Além disso, descobrimos que existem regiões do globo que são hotspots de diversidade de serpentes insulares, com destaque para o Caribe, com 181 ilhas, entre elas Cuba e Hispaniola, e a região oriental, com mais de 200, onde se destaca o Arquipélago Malaio (que contém Bornéu, Sumatra e Nova Guiné).

“Também encontramos hotspots de faunas de serpentes insulares bem estudadas, como as da costa sudeste do Brasil, as do Caribe, as gregas e as do Japão”, conta.

De acordo com Martins, embora a origem das serpentes das ilhas que se situam nas plataformas continentais seja muito distinta daquela das oceânicas, os padrões biogeográficos encontrados nesses dois tipos de locais não é muito diferente. “A riqueza de espécies nos dois tipos de ilhas, por exemplo, é explicada em grande parte por dois fatores principais: a área e a diversidade de habitas encontrada nelas (este último fator inferido pela altitude máxima)”, explica. “Isso já era conhecido para as oceânicas, mas ainda não havia sido descrito para as continentais.”

A presença e o sucesso das cobras em ilhas não são por acaso, no entanto. De acordo com Martins, algumas de suas características fazem com que elas sejam especialmente hábeis em persistir nas continentais e em colonizar oceânicas. “As serpentes conseguem passar períodos muito longos sem se alimentar, até mais de um ano sem comer em várias espécies, por necessitarem pouca energia para viver”, explica. “Isso torna possível que elas passem longos períodos à deriva nas balsas de vegetação, aumentando a chance de acabar aportando em uma ilha.”

Além disso, há muitas que possuem características que possibilitam crescimento populacional rápido, como, por exemplo, fecundidade e frequência reprodutiva altas. Isso possibilita o estabelecimento em pouco tempo de uma população viável em ilhas, isto é, com poucas chances de extinção. O pequeno porte de muitas espécies também ajuda.

Essas cobras menores podem colonizar as muito pequenas, onde há relativamente poucos recursos. “Por fim, várias espécies comem diferentes tipos de presas, o que facilita o estabelecimento em ambientes insulares, mesmo quando há poucos alimentos disponíveis, como é o caso da maioria das ilhas pequenas”, acrescenta Martins.

Entre os exemplos de cobras que são excelentes colonizadoras está a jararaca comum do sudeste do Brasil (Bothrops jararaca). “Adultos dessa espécie podem sobreviver com apenas uma ou duas presas por ano”, diz Martins. “Além disso, ela possui alta fecundidade, com média de cerca de 10 filhotes por ninhada, mas podendo chegar a mais de 30.

Como se não bastasse é generalista em dieta, alimentando-se principalmente de centopeias, lagartos, anfíbios, aves e mamíferos. Isso certamente facilitou a persistência de populações delas em várias ilhas continentais da costa sudeste do Brasil.”

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